Mulheres Negras e Política

Durante muitos anos a população negra esteve à margem do processo eleitoral, o que trouxe consequências vivenciadas até hoje. No Brasil, cerca de 27% da população são mulheres negras. Mas, quando o assunto é representação no Congresso Nacional, apenas 2% são mulheres negras. Na Câmara dos Deputados, a taxa cai para 1%.

A estrutura da política explica o motivo das mulheres negras concentrarem os piores indicadores sociais, seja no  acesso à educação, à saúde ou ao emprego digno. Diante de um cenário de representação tão desigual, seguimos à margem dos processos de elaboração de políticas públicas e ações que possam ser efetivas para redução das desigualdades.

Apesar de constituir o maior grupo social na estrutura da sociedade brasileira, as mulheres negras ainda são poucas nos espaços de poder institucional. Quais são as razões pelas quais os eleitos seguem ao longo do tempo com perfil majoritário muito semelhante – homens, brancos e de alta classe socioeconômica – perfil este que não corresponde à maioria do eleitorado brasileiro?

Como parte da resposta a este questionamento, devemos considerar as estruturas sociais brasileiras que determinam muito profundamente as interações entre os indivíduos, especialmente nas esferas de poder. Estas estruturas estão embasadas nas desigualdades observadas quando consideramos raça, gênero e classe: devemos apontar a importância das interações entre estas variáveis, considerando seu “entrelaçamento complexo”, quando promovemos qualquer análise que tenha a ambição de estabelecer relações entre os limites das democracias contemporâneas e as desigualdades sociais, considerando que precisamos encarar como um grande problema as hierarquias que se constituem na convergência entre os três eixos. 

A lógica do sistema eleitoral brasileiro opera através de elementos de distinção político-social, por meio da qual fica determinado que será entre os candidatos dos estratos mais elevados de distinção político-social onde estarão as candidaturas efetivamente competitivas.

O que se observa é que há interação entre dinâmicas sociológicas da discriminação racial no Brasil e o funcionamento próprio do nosso sistema eleitoral. Decisão recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinando distribuição proporcional de recursos do fundo eleitoral entre candidatos negros e brancos confirma essa observação.

As intelectuais brasileiras Lélia Gonzales e Sueli Carneiro apontam a importância do movimento de mulheres negras brasileiras na busca por assegurar que a agenda destas mulheres seja considerada como agenda central nos debates acerca das desigualdades no Brasil. 

Segundo a intelectual estadunidense bell hooks, o feminismo deve ser uma luta contra não apenas as opressões de gênero, mas também de classe e raça. Ela defende que seja um movimento de massas e que parta de experiências concretas – e não apenas teóricas – para que envolva o maior número possível de pessoas.

Há a compreensão de que uma sociedade melhor para mulheres negras é uma sociedade melhor para todos. Segundo a intelectual estadunidense e uma das fundadoras do Partido dos Panteras Negras nos EUA, Angela Davis, sendo a mulher negra a base da sociedade, quando esta se movimenta, toda a estrutura se movimenta com ela.

 Nestas eleições municipais, dê seu voto a pessoas que se comprometam com as pautas que melhorem a qualidade e condição de vida das mulheres negras. É desta forma que vamos promover a democracia e pluralidade de vozes nos espaços importantes da política do nosso país.

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